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Falando da inveja

inveja

Não acredito em pecados, mas acredito em sentimentos nocivos que, como uma erva daninha, podem crescer e minar um ser humano. Vou falar da inveja, esse sentimento tão mesquinho que todos nós temos, em maior ou menor escala.

O primeiro passo para não sucumbirmos à inveja, assim como a qualquer outro sentimento nocivo, é reconhecê-la dentro de nós. Não adianta fingir que ela não existe dentro de você, reconheça-a e transforme-a. Sabe em quê? Em ADMIRAÇÃO!

Assim como dizem que amor e ódio são lados da mesma moeda, digo que a inveja é o lado negativo da admiração, ambas estão na mesma moeda. Hoje em dia as pessoas estão criando uma inveja “boa”, chamando-a de inveja branca, em oposição à inveja má, chamada de inveja vermelha. Para mim isto é fruto da nossa inversão de valores, pois inveja será sempre inveja, um sentimento mesquinho e nocivo, independente da cor que tiver. Não estou dizendo que eu não tenha esse sentimento. Todo mundo o tem. O que me deixa perplexa e revoltada é ver como as pessoas gostam de alimentar este sentimento tão medíocre. Vivemos numa sociedade que cultua a inveja. Eu me pergunto, por que as pessoas gostam, fazem tanta questão de despertarem sentimentos negativos nos outros? Provavelmente é um grande problema com a autoestima.

Eu quero despertar coisas boas nas pessoas! Quero ser uma agente da luz, e não das trevas. Lembro-me de uma amiga que me contando algo de seu passado me falava a seguinte frase, com um sorriso no rosto: “…E minhas amigas morriam de inveja…” Que triste… Ela queria amigas assim? Ela era uma amiga de verdade?

A publicidade cai de boca, reforçando a desunião feminina quando faz da inveja sua estrela principal para vender seus produtos. Outro dia no metrô deparei-me com o slogan “Suas amigas vão morrer de inveja”. Ontem vi na TV o comercial de uma loja em que a modelo dizia: “Eu quero é que elas morram de inveja!”

Diga-me, como vamos transformar este mundo num mundo melhor, como dizemos que queremos, se enaltecemos sentimentos que deveríamos combater? Como vamos construir uma sociedade de amor e solidariedade, se valorizamos exatamente o oposto a isso?

Por três anos consecutivos, os filmes ganhadores do Oscar foram filmes de violência (Crash, Os Infiltrados, Onde os fracos não têm vez). Como queremos sair de uma sociedade assim? Você acha que isso não quer dizer nada? Então eu digo a você que violência, inveja, competitividade desenfreada, ganância e ambição exagerada, isto tudo está dentro de um mesmo caldeirão.

Se você quer mesmo transformar este mundo em algo melhor, está na hora de mexer este caldeirão no sentido contrário e transformar inveja em admiração, violência em amor, competitividade em altruísmo, ganância e ambição em generosidade.

O problema é que vivemos numa cultura que nos ensina e nos vicia em sentimentos de carência, de falta. Não aprendemos a valorizarmos o que temos e somos, a confiar na abundância do Universo, e de que merecemos tudo de bom. Quantas vezes não ouvimos ou já dissemos frases como: “É muito bom pra ser verdade”, “Será que eu mereço toda essa felicidade?” Merece sim, eu digo.

Uma sociedade baseada na culpa não nos deixa ver a luz que temos dentro de nós e todas as maravilhas que podemos ser e fazer. É por isso que se fabrica cada vez mais ídolos, celebridades; para suprirmos uma carência de nós mesmos, do que achamos que não somos. Mas na verdade somos muito e podemos mais ainda. Podemos nos dar as mãos e nos ajudarmos de verdade. Podemos dar um sorriso sincero quando encontramos nossa amiga e ela está tão bonita; podemos sentir uma felicidade real no coração quando alguém nos conta que está namorando uma pessoa incrível, mesmo que estejamos sozinhos ou com problemas em nosso relacionamento.

Temos nossos fantasmas, nossos traumas, nossos defeitos, precisamos reconhecê-los. Isto é um trabalho para a vida toda, o autoconhecimento. Não podemos fingir que somos perfeitos, não adianta reprimir nossa sombra, mas adianta olhar e transformar, saber administrar e principalmente, não alimentar o que é nocivo.

Nota: A imagem acima é uma gravura do séc XVI, Inveja, de Sebastián de Covarrubias

Anna de Leão (Favor mencionar autoria e fonte ao reproduzir este texto).

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ABOUT CRASH E MUITO MAIS…

Minha amiga Carmen (http://www.carmenfilgueiras.blogspot.com ) deixou um comentário no meu texto “Falando da Inveja” defendendo o filme Crash. Quero deixar claro que quando falei dos filmes vencedores do Oscar, em nenhum momento estava pondo à prova a qualidade dos mesmos. O filme Crash (denunciando a violência em suas várias facetas) foi um filme violento seguido de outros dois filmes, mais violentos ainda, vencedores do prêmio. Isto me chamou a atenção e entrou no contexto do que eu falava. Só quis demonstrar como sentimentos, valores e emoções nocivas vão ganhando espaço na sociedade. Temos que estar atentos para não nos acostumarmos com isto! Se não é que já nos acostumamos, pois a violência, por exemplo, já está banalizada. Já é algo “normal”.
As denúncias devem ser feitas, a liberdade de expressão existe e deve sempre existir, assim como um cuidado e sensibilidade para não nos deixarmos cair numa areia movediça que nos trague por inteiro. A mídia só divulga tragédias, notícias ruins, não porque não haja coisas boas, mas porque estas notícias vendem muito mais. O ser humano anseia por isso atualmente, talvez por suas vidas vazias…
Só espero não abrir o jornal certo dia, a procura de um filme no cinema, e só existir filmes de violência, porque sinceramente, eu não aguento mais. Já foi o tempo em que eu gostava de um Pulp Fiction da vida, hoje em dia, essas cenas me chocam, desestimulam-me, agridem-me profundamente. Talvez por eu não ser mais tão jovem, talvez por haver uma violência cada vez mais forte e mais próxima de nós, talvez porque hoje eu veja as coisas com outros olhos…
Anna Leão (Favor mencionar autoria e fonte ao reproduzir este artigo).

 

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