conto

Terça-Feira de Carnaval

 

O barulho na rua não dava trégua. Por mais que eu fechasse as janelas, ligasse o ar condicionado e colocasse uma música bem alta, eu não deixava de ouvir a alegria da rua. Como aquilo me incomodava! Mas o que eu podia esperar? Terça-feira de Carnaval, Copacabana, Rio de Janeiro!

Fui até a geladeira ver se encontrava uma cerveja. Nenhuma. Fazia tanto tempo que eu não comprava bebidas alcoólicas… Por que tudo isto? Por que tudo estava dando errado? Por que eu estava ali sozinha e triste enquanto uma multidão se divertia a valer embaixo da minha janela? “Moça se suicida em pleno Carnaval”. “Mulher se joga em cima de bloco na Terça-feira de Carnaval”. Não! Seria ir longe demais. Eu não merecia um fim trágico desses.

Resolvi tomar um banho. Quem sabe trancada no banheiro, com o barulho da água, eu não deixava de ouvir a algazarra lá debaixo. Colocaria o som em cima do banquinho perto da pia e pronto. Seria uma festa só. A minha festa particular. A única festa que eu podia suportar naquele momento. Foi o que eu fiz. Realmente não ouvia nada de dentro do banho, apenas o meu CD preferido e o deslizar da água regando o meu corpo. No entanto, pensamentos longínquos começaram a povoar a minha mente e foram me remetendo a antigos Carnavais.

Me lembrei de quando eu era mais jovem, de como eu curtia o Carnaval. Foram anos seguidos planejando, ansiando por aquele período de quatro dias, que claro, eu prolongava para nove. Havia anos em que eu passava no Rio mesmo, outros eu viajava, sempre com a turma. Que grupo animado era o nosso, superunido, até aquele dia… Até aquela Terça-feira de Carnaval. Completamente bêbada minha amiga resolveu pegar o volante. Foi morte na hora. Ela estava sozinha e ia para outro bloco onde estaria um paquera. Eu quase fui com ela…

Depois do acidente nosso grupo se dispersou. Em vez de ficarmos mais unidos em nome da dor, acho que ficamos tão traumatizados com o ocorrido que nossa defesa foi nos afastar uns dos outros, assim como de  qualquer coisa que nos fizesse lembrar  daquela tragédia. Nos Carnavais seguintes eu procurava estar bem longe do Rio e de qualquer movimento em torno daquela data festiva. Teve um ano em que eu até consegui sair do país neste período. Em outros me meti em retiros espirituais; cada ano numa filosofia diferente para não enjoar. Também parei de “encher a cara”. Até tentei um tempo depois, em ocasião completamente diferente, mas não consegui, logo me dava ânsia de vômito.

Tudo mudou depois que eu me casei. Isto faz-me lembrar do que os médicos diziam antigamente para as mocinhas: “Quando casar passa”. Ou eram as mães que diziam isto? Não lembro, talvez os dois. Mas a verdade é que meu marido era muito animado e conseguiu aliviar boa parte do meu trauma; e depois, o que uma paixão não faz?! Voltei a pular o carnaval, a me divertir e até mesmo a  planejar esta época do ano como fazia antes. Porém, novamente me encontrava infeliz e odiando o carnaval, mas  por motivos diferentes…

Saí do banho e lá estava aquela poluição sonora em meus ouvidos. Eu precisava de uma cerveja. Há tanto tempo que eu não sentia esta vontade de beber… Só havia uma alternativa, ir ao bar do lado comprar. “O quê?” “Ficou louca?” “Se misturar com a muvuca?!” Não tinha outro jeito. Coloquei um vestido qualquer e desci. Nossa! De perto era pior. Era muita euforia, muita animação. Aquilo começou a me enjoar. “Será que eu vou conseguir beber?” “Já estou bêbada”

Entrei no bar num rompante.

— Moço, por favor, quatro latas de cerveja.

— Não temos mais. Agora só chope.

— Só chope? Quer dizer que eu vou ter que ficar bebendo aqui?!

De repente ouvi uma voz atrás de mim.

— Ah! O chope aqui é muito bom, e a graça é tomar no balcão mesmo.

Olhei para ver de quem era aquela voz e me deparei com uma senhora bem distinta. Ela tomava seu álcool, sentada, ali mesmo, no balcão. Era bonita e bem arrumada.

— Vamos, minha filha, sente e saboreie o chope da casa. É muito bom! A espuma é bem cremosa.

Fiquei meio sem ação e sentei ao seu lado. O garçom logo colocou uma tulipa na minha frente e perguntou à senhora se ela queria mais uma.

— Quero sim, rapaz. Este ano a rua está mais animada do que nos últimos anos.

— É sim. Este carnaval está bombando! – respondeu o garçom já lhe servindo mais uma tulipa.
Eu não me contive e perguntei à senhora se ela morava ali perto.

— Não, querida. Onde eu moro não há muita animação. É por isto que todo ano, na Terça-feira de Carnaval, eu venho para esta rua, para este bar.

Fiquei atônita. Eu querendo fugir daquilo tudo e aquela senhora vindo todo ano, sabe Deus de onde, para curtir aquele inferno.

— Por que a senhora gosta tanto de vir par cá?! – finalmente consegui perguntar.

— Ora, você não vê? Isto aqui é o paraíso! É pena que só tenhamos uma vez por ano. Acho esta felicidade do povo tão contagiante. O Carnaval é um presente dos deuses para pessoas sozinhas como eu. Perdi meu marido há uns seis anos, quando me aposentava. Meus filhos cresceram e nenhum mora mais no Rio. Pergunta se eles querem vir pra cá no Carnaval….Nunca fui uma pessoa muito parada, embora centrada. Vir para cá, ver toda esta vida, me anima para enfrentar mais um ano de quietude, rotina e solidão.

Meus olhos se enchiam d’água enquanto, perplexa, eu ouvia aquilo. Com apenas vinte e sete anos, eu tinha uma vida parecida com a daquela senhora, mas com certeza com muito menos sabedoria e tolerância.

— Senhora, meu marido foi embora, não tenho filhos e acabei de perder meu emprego. Ainda por cima tenho uma dívida enorme para pagar. Moro aqui do lado e não estava suportando este barulho, toda esta alegria; não estava condizente com o meu estado de espírito, entende?

A senhora sorriu compassivamente para mim e eu continuei:

— Toda esta felicidade me incomoda, já que estou infeliz. Chego a me sentir agredida pela felicidade alheia. Como a senhora consegue?

— Minha filha, com o tempo a gente vai aprendendo que a vida nos dá presentes quando mais precisamos. Pode ser algo aparentemente simples ou sem importância, mas que pode mudar uma vida. Mas temos que estar abertos para reconhecer e aproveitar estes presentes. Que bom que você saiu de seu apartamento e veio até aqui tomar este chope. Quem sabe aquele belo moço ali do outro lado do bar, que não tira os olhos de você, não seja seu futuro marido?

Olhei espantada na direção indicada pela senhora e deparei-me com um charmoso homem olhando para mim. Logo, o meu lado derrotista, pessimista e infeliz se colocou.

— Ah, mas é Carnaval. Romances de carnaval não perduram.

A senhora se levantou, pegou sua bolsa, pagou seu consumo, me deu um beijo de despedida e disse:

— Tanto eu quanto minha filha mais nova conhecemos nossos maridos numa Terça-feira de Carnaval. Boa sorte!

 
Por Anna Leão. Todos os direitos reservados.


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